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Invasões Bárbaras: Um diagnóstico de nossa época - Aurélio Melo

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Ficamos perplexos em 11 de Setembro de 2001. Lembro-me que naquele dia fui trabalhar mais tarde, excepcionalmente. Pura coincidência. Ouvindo rádio, soube do primeiro ataque. Liguei a TV: vi o segundo. Em meio a tantas especulações, fui informado sobre os fatos como todo mundo. Mas, saber que se tratava de um ataque terrorista não foi suficiente: continuei perplexo e, também, apreensivo. De novo, como todo mundo.
Minha compreensão daquele dia viria anos depois ao assistir “As invasões bárbaras”. O filme apresenta rapidamente uma cena (real) do 11 de Setembro, seguida de um especialista classificando como historicamente insignificante as três mil mortes decorrentes.
O filme conta a história do professor de história, Rémy, que internado em um hospital público do Canadá, por um câncer raro, vai rever sua vida diante da iminência da morte. Seu filho é o “príncipe” dos bárbaros: jovem rico, relaciona-se com o mundo através do dinheiro, comprando pessoas.
Com ironia fina, vamos conhecendo muitas outras invasões bárbaras do nosso ocidente. O ataque do 11 de Setembro foi “apenas” uma invasão não-cotidiana. Outras invasões bárbaras já vinham ocorrendo antes desta data. E é disto que o filme trata.
A tecnologia é uma invasora bárbara. Curiosamente, os mais jovens ensinam os mais velhos – alguém tem notícia desta inversão geracional na nossa história? Ainda sobre a tecnologia observamos um paradoxo: ficamos mais autônomos, porém, mais dependentes dela. A mídia banaliza a violência do ataque às torres gêmeas, quando o submete à análise histórica de um especialista. E assim, re-significa o fato.
O conhecimento da humanidade é substituído pelo conhecimento útil, pela informação, pelos últimos números da bolsa de valores. Pouco importa a história da humanidade. De que vale tanto conhecimento de um professor de História? Rémy reclama para sua ex-esposa, mãe de seu filho, que este sequer leu um único livro na vida. A resposta dela é concisa: “Seu filho ganha em um mês o que você ganha em um ano!”.
Outra invasão bárbara: as relações humanas intermediadas pelo dinheiro ou por algum benefício material imediato. Algumas das personagens do filme são naturalmente corruptas. Não são vilãs, mas são pessoas do cotidiano vivendo novas formas de relação social. As drogas invadem também a sociedade e o personagem policial do filme afirma que prender traficantes é uma rotina sem fim, uma vez que há muitas pessoas (cada vez mais?) querendo comprar.
Mas uma coisa permanece intacta neste filme: a morte. A morte não é atingida pelas invasões bárbaras. Ao contrário, a morte voluntária de Rémy vai reunir os amigos em torno da fogueira simbolizando o homem primitivo em oposição à tecnologia. Ela vai também revelar o amor entre pai e filho. A morte vai, ainda, reafirmar o mistério da natureza ou da vida. Neste belíssimo filme é a morte que humaniza os homens. É a morte que os torna, temporariamente, não-bárbaros.

Autor: Aurélio Fabrício Torres de Melo - Psicológo, Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie

 
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2 Comments

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  1. Muito bom, Aurélio, eséro que continue nos brindando com analises assim claras. Abração.
  2. Prof. Aurélio...muito bom...é para se pensar e compartilhar...ao se olhar para morte...encontra a vida!!!

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